segunda-feira, 27 de julho de 2009

A CAPACIDADE DE FAZER LEITURAS







Certa vez, não lembro exatamente quando... Só sei que era uma manhã de maio deste ano, uma terça ou quinta-feira que são os dias em que normalmente “atendo” na Pestalozzi... ocorreu um fato, bobo até, que me chamou à atenção para a capacidade de se fazer leituras.

Na Pestalozzi a terminologia clínica às vezes se confunde com a pedagógica, daí vem o hábito de se dizer “atender” ao invés de se dizer “dar aulas” ou simplesmente ensinar. Outro detalhe: lá, alunos “comprometidos” são aqueles que, devido as suas “deficiências”, sentem muitas dificuldades em realizar algumas (ou muitas) das atividades pedagógicas propostas.

Na escola dita “regular” o termo “comprometido” expressa quase o contrário: comprometidos são aqueles que, a despeito de todas as dificuldades e “limitações”, buscam o saber; são os que tentam transformar informações em “conhecimento” e que na maioria das vezes – graças a Deus – conseguem.

Mas voltemos ao fato a que me reportava inicialmente... Naquele dia cheguei uns minutos atrasado e logo me dirigir ao Naso/Funcional que é setor que acolhe as crianças com maior grau de comprometimento psico-motor. então deparei-me com uma criança tentado se equilibrar ao mesmo tempo que tropeçava. Observei que o motivo dos tropeços era os enormes cadarços desamarrados.

Fui ao seu socorro e então pensei: se apenas amarrasse o cadarço de novo não estaria resolvendo problema pois, devido o seu tamanho, certamente ela voltaria a tropeçar. Depois pensei em cortá-los o que, dependendo da mãe, só iria me dar dor de cabeça. Por fim, resolvi tirá-los e recolocá-los de modo que ficassem com as pontas mais curtas. E assim foi feito.

A dona do tênis ficou contentíssima com o trabalho que, modéstia à parte, de fato estava lindo! E quando tentava calça-la novamente senti que alguém me puxava pela camisa. Virei-me e para minha surpresa deparei-me com outra aluna extremamente “comprometida”, portadora de autismo, com um dos tênis na mão estendo-o em minha direção.

Aquele gesto aparentemente insignificante comoveu-me bastante. Pois com aquela atitude, aquela “pessoinha” por um instante saiu do seu isolamento para entrar no nosso mundo.
E o que possibilitou essa passagem? A capacidade de fazer leituras.

Naquele momento, ela, pessoa humana, embora sem palavras, resolveu falar. Ela queria deixar claro que estava ali e que tinha uma opinião a expressar:

“ O tênis da minha colega está bonito e eu quero que o meu fique igual”.

Pois é, a capacidade de se fazer leitura obrigatoriamente nos leva a uma reflexão e a uma mudança de postura. E o legal disso tudo é saber que neste mundo tudo é passível de leituras – ainda que algumas sejam equivocadas e/ou condenáveis.

Usemos, pois, todos os nossos sentidos para ler, refletir, argumentar, escrever e agir...

Prof. Gilvan Barbosa


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